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Sombrias

Thaís Drimel Andrade

* Morte
* Sem Inspiração
* Quisera Eu
* Nada
* Sem Razão
* Noites Sombrias
* Sem Esperança
* Descrença
* Oração
* Deus
* Vazio
* Fim
* Deusa Negra
* Destino
* Sem Motivo
* Súcubus
* Lilith

Morte
" Ó morte querida, esperada
Tu és por mim a mais desejada.
Quero o teu único beijo, longo, fatal,
Frio, cheio de desejo.
Venha me abraçar, em teus braços me envolver,
De modo tal,
Que me liberte deste infindo padecer.
Livra-me de tudo, ó Amada!
Conduza-me à paz eterna
E indiferente existente no vazio do Nada.
Carrega-me contigo em teu alado corcel
A voar através do céu.
Quero perder-me em tua escuridão
Tão cheia de compaixão
Sejas para mim a mãe mais terna
Que eu pudesse possuir.
Deixa-me de meus pesadelos fugir.
E, das tristezas e desenganos da Vida
Afasta-me, pois feliz não fui
Enquanto eu vivi.
Venha, ó Morte, fiel companheira!
Tu sim és a amiga derradeira
E não a Vida - aquela mentirosa! -
Que faz promessas enganosas
E quando dela mais precisamos,
Nos abandona à nossa própria sorte.
Te desejo tanto, Morte!
Clamo por ti!... - Morte, onde estás? "

(30/10/95)

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Sem Inspiração
"Eu queria escrever, expressar o que sentia,
Tentei fazer uma poesia
Porém, no lugar dos versos está o vazio sombrio
Do silêncio sepulcral existente em meu ser.
Tentei escrever, mas não há palavras
Que traduzam a dor que senti
Quando percebi que não
Mais consigo escrever.
Essa dor - tão intensa, horrenda e fria -
Veio da certeza de que em meu coração
Não há mais poesia.
E mesmo com tanto sentimento,
Tanta dor e emoção,
Foi-se embora toda a minha inspiração.
Só me restou o sofrimento
De não mais conseguir expressar
O que sinto.
Resta-me apenas o mudo padecer.
Minh'alma quer gritar
E estou muda agora:
A poesia foi-se embora
E levou consigo a magia
De transformar em palavras as emoções.
Agora que perdi toda a poesia,
Despedaçado está meu coração:
Sem poder escrever, perdi a razão de viver!"

(Thaís Drimel Andrade - 07/ 96)

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Quisera Eu
"Quisera eu descrever aqui,
Nestas pobres linhas,
Tudo o que eu vivi e senti
Porém não consigo me expressar
Nestes versos sem rimas.
Só me resta a dor, a muda dor
Do vazio que cala meu ser.

Quisera eu poder gritar
E escrever aqui tudo o que sinto,
No entanto, o papel ainda em branco
Zomba de mim
E ri, em toda a sua alvura,
Desta minha tortura
Que dilacera minh'alma muda.

Quisera eu não mais sofrer
E aqui poder escrever
Tudo o que sinto
E, através da poesia
Acabar com o padecer infindo
Que tanto angustia
O meu viver."

(Thaís Drimel Andrade - 19/09/96)

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Nada
"Não estou escrevendo nada
...Que seja digno de atenção.
Pois estas linhas mal escritas
E de beleza desprovidas
Não poderiam causar jamais
A alguém qualquer emoção.
Estes versos são palavras
Amontoadas e nada mais,
São uma verdadeira aberração
Nascida de minh'alma
Desprovida de inspiração.
Pois, em algum lugar,
Dentro do meu ser,
A poesia deixou de viver.
E agora, não sou mais nada,
Sou uma casa vazia
Pois minh'alma, ao ver
Que a poesia fugira,
Foi atrás de sua amada,
Abandonando-me ao esquecimento
Escuro e amargo do Nada."

(Thaís Drimel Andrade - 08/09/ 97)

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Sem Razão
Não há razão
Para poesias escrever
Quando não há inspiração
Pois, para ser poesia de verdade
Não basta versos
E rimas a poesia ter.
É preciso que as palavras
Brotem do coração
E demonstrem toda a emoção
(Ou seria comoção?)
De quem as escreve.

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Noites Sombrias
"Nestas noites sombrias,
Com brisas maldosas e frias,
O Mal está a espreitar,
Esperando apenas o momento de atacar
Os corações desprotegidos
Daqueles que, sem nada suspeitar,
Dormem, desprevenidos,
Não sabendo que o Mal há de vir
E, que, sobre todos, a Maldição
Das trevas sem fim
Há de recair.
Pois esses são tempos de mudança
E os ventos da transformação
Varrerão este mundo
Que, de mudar, nunca se cansa.
Já é chegada a hora
De mais uma verdade ser revelada
A todo aquele que, com honra e sabedoria,
Houver usado o anel e a espada
Do mago e guerreiro.
Pois, somente aquele que trilhou o verdadeiro
Caminho da magia
E que, também como guerreiro, lutou,
Poderá conhecer
A verdadeira face
De Ísis que, das trevas, agora renasce,
Tal qual a crescente Lua,
Completamente nua,
Em todo o seu esplendor,
Sem véu para os seus segredos
E mistérios encobrir..."

(Thaís Drimel Andrade - 07/11/97)

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Sem Esperança
É preferível a Morte
À uma Vida sem esperança.
Pois, a primeira
Ao menos é verdadeira,
Nossa derradeira e eterna companheira,
Que, da paz, é a última lembrança.
A outra, é mera ilusão,
Pois sem esperança no coração,
Temos uma pseudo-vida,
Aliás, não possuímos nada,
Pois, aquele que, da vida, duvida,
Já não vive, é uma casca vazia, abandonada.
É um fantasma, fingindo viver
E ousando chamar sua farsa de vida.
Não existe Vida sem Amor
Mas existe Amor sem dor;
E, acredita, tu recebes sempre aquilo
O que mais mereceres
E mereces tudo o que mais desejares.
Portanto, se és infeliz,
Não culpes a Vida, mas apenas
A ti mesmo, pois és o único responsável
Sobre tua Vida e tudo o que lhe acontece.
Não tenhas a ousadia de blasfemar contra a Vida,
Quando tu és o único errado.
Se queres morrer, morre, mas não desdenhes
Da Vida que não soubeste viver e aproveitar.
Tampouco culpes a mim, que apenas te digo
O que preferirias não escutar...

(Thaís Drimel Andrade - 11/97)

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Descrença
Aquele que não acredita no amor
E crê somente na dor
Exultando ao sofrer,
E exaltando a sua dor ao escrever
Poesias em seu louvor,
Cheias de fel, ódio, dores e pranto,
Sequer imagina o quanto
De sua vida está desperdiçando,
Pelo caminho da Morte trilhando,
Fazendo da escuridão o seu guia,
Esquecendo-se por completo da luz do dia,
Ao amar apenas as horas mais sombrias.
Muito há de sofrer e mil vezes mil mortes
Há de morrer e terríveis dores sentir
Aquele que assim viver, seduzido pela
Maléfica magia de uma lua negra,
Que a nada ilumina e cujas trevas,
Com promessas de profano poder
Corrompem e devoram as almas dos mais fracos.

(Thaís Drimel Andrade - 11/97)

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Oração
"Ó DEUS que criastes o Universo,
Venho humildemente suplicar-Vos:
Mudai este mundo tão vil e cruel!
Fazei o AMOR renascer nos corações
Empedernidos dos Homens...
Devolvei a RAZÃO e a PAZ
A esta tão insana Terra,
Cujas nações estão sempre em acirrada guerra.
Não deixeis germinar a semente da Vingança,
Que tem por fruto a Desgraça.
Trazei de novo o AMOR e o RESPEITO à VIDA
Aos corações dos Homens,
Cujos filhos encontram a Morte
Em frios e solitários campos de batalha.
Aliviai-nos do peso do Medo,
Que nos aprisiona dentro de muros e grades
Em nossas próprias casas e cidades.
Protegei-nos da Violência
Que ceifa vidas em nossos próprios lares.
Curai o câncer da Indiferença
Que se espalha por toda a Terra.
Iluminai e dissipai a treva da Ignorância
Que aprisiona nossas mentes e almas.
Acabai com a Hipocrisia e a Inveja
Que a todos nós envenenam.
Arrancai todas as máscaras da humanidade,
Para que a VERDADE prevaleça,
Sem o artifício da Falsidade.
Purificai-nos da Corrupção
Que destrói nossa sociedade.
Dai-nos a HUMILDADE necessária
Para aprendermos com os erros passados.
Ó Deus, ainda Vos rogo:
Perdoai os nossos numerosos pecados,
Não deixeis que erremos novamente,
Mas, acima de tudo,
Libertai-nos do nosso próprio Mal..."

(06/1999)

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Deus
"Deus, onde estás
Que não me ouves?
Estarei eu tão surda
E cega para não te
Ouvir nem ver?
Deverei fechar meus olhos
E tapar meus ouvidos
Para no Teu nada penetrar?
A tudo e a todos terei que renunciar
Para poder Te encontrar?
E, quando isto acontecer,
Irás meu pranto ouvir?"

(26/09/2000)

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Vazio
"Meu corpo flutua no vazio do espaço
Meu espírito está livre,
Meus olhos estão fechados
Mas vejo através dos mundos
E ouço no silêncio todos os sons da Criação.
Não mais estou viva,
Estou de volta ao Nada original
No qual tudo foi gerado.
Sinto o pulsar da Vida,
Cada vez mais distante,
Enquanto aos poucos
Minha consciência se esvai e,
Lentamente, torno-me Uma
Com o Universo novamente."

(09/2000)

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Fim


"Vida, ó Vida,
Hoje eu me despeço de ti.
Amei-te com todas as minhas forças
E em todos os momentos,
Mas, já não consigo mais
O teu fardo suportar...
Sim, um fardo, pois,
Se antes eras a felicidade,
Agora és um abominável.
Meus dias são um tormento,
Já não agüento mais tanto sofrimento.
Esta noite me libertarei
Desta existência que me aflige.
Hoje encontrarei a tão sonhada paz,
Nos doces e frios lábios da morte,
Que virá me abraçar
Em meus sonhos....
E, quando eu despertar,
Já não mais aqui estarei,
Todas as lembranças más olvidarei,
E de todas as prisões e limitações,
Finalmente, livre eu serei."

(2000)

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Deusa Negra


"Ó deusa negra,
Neste momento, me entrego a ti:
Beije meus lábios inertes
Enquanto a vida se esvai
E meu ser abandona este
Tão incômodo invólucro de carne,
Para que eu possa deixar de existir
E, à tua essência me fundir,
Ó deusa que trazes a morte,
Liberte-me do meu passado,
Bem como do presente e do futuro,
Pois não quero mais viver...
Anseio pela liberdade do vazio."

(18/02/2002)

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Destino


"Destino, ó Destino,
Por que brincas comigo assim?
Fizeste de mim
Mero joguete em tuas mãos.
Fizeste-me crer que, finalmente
Havia encontrado aquele
Que seria o meu amado...
Destino, me prometeste uma vida
De ternura e bem-aventurança,
Para então destruíres minha ilusão,
Arrebatando de mim
Até mesmo a última esperança
Que me restou, de, um dia, encontrar alguém....
Alguém a quem eu pudesse amar,
Alguém que pudesse me amar,
De verdade, por incontáveis eras...
Ó Destino, por que tens prazer
Em desiludir-me e destruir minhas quimeras?
Ó Destino, por te ris de mim?
Pois nas voltas sem fim
Que esta vida dá,me fazes buscar, encontrar,
Perder, reencontrar, desencontrar
E buscar novamente por aquele
A quem meu coração se entregará...
Ó Destino, por que, somente agora
Trazes-me alguém com promessas de amor?
Logo agora, nesta tão triste hora
Em que meu coração encontra-se cheio de dor?
Como poderá florescer o amor
Nas planícies devastadas e calcinadas do meu ser?
Serei capaz de enfrentar o medo de sofrer?
Serei digna do sentimento que ora inspiro em outrem?
Ó Destino, que queres mais uma vez pregar-me peças...
Saiba que, desta vez, não me encontraras desprevenida...
Não és mais o dono da minha vida.
Serei eu a lançar as cartas na mesa, e,
Ainda que eu me decepcione, a escolha e o caminho serão meus,
Ó Destino, não mais serão seus..."

(21/02/2002)

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Sem Motivo


"Quero escrever e me expressar,
mas não sei o que irei falar,
não sei o porquê de me sentir assim
tão triste, calada e sombria, enfim,
nesta noite escura e fria
contemplo a mim mesma,
nua e crua, à luz espectral da lua,
essa lua negra, violenta,
sanguinária, que a tudo devora.
Minh'alma tenta fugir
de sua ira, mas é tarde demais
não há esconderijo ou abrigo aonde eu possa ir,
sua sede de sangue é grande,
minha hora não demora.
A luz errante da lua negra me toca
e todo o meu ser se desmorona,
Tragado pela chama gélida
que a tudo consome e extingue."

(15/11/2002)

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Súcubus


"Venha, renda-se a mim,
Ouça e atenda ao meu chamado,
Sinta o meu cheiro,
Pleno de luxuria e desejo
E entregue-se à fúria da paixão.
Não adianta lutar, você não pode negar
O desejo ardente em eu ser.
Não há como se esconder ou fugir,
Você quer me amar, adorar e possuir,
Mesmo sabendo que irá se destruir,
Mas não pode e não quer evitar
Este desejo incontrolável, indomável, de vir
E se entregar, para em meu fogo se consumir.
Por mais medo que você tenha
Nada impedirá que eu venha e lhe possua,
Inclusive você até com isso sonha,
Embora não seja capaz de admitir
Desejar me tocar, me possuir.
Mas eu virei suas fantasias obscuras realizar,
No meio de uma noite escura,
Surpreendendo você em seu leito,
Usando e abusando de seu corpo
Ao meu bel-prazer,
Os seus sonhos de pureza e candura
Transformados em lascivos turbilhões de pecado e luxuria.
E, em troca do seu êxtase, toda a sua energia beberei
Para o meu deleite profano.
Após saciar minha sede, lhe abandono,
Deixando-o a sós com sua dor e pesar,
Delirando e conjeturando se tudo foi mera loucura,
Ou se realmente eu o visitei,
Vampirizando e abusando do seu corpo mortal.
Mas, confesse o quanto você gostou, se deleitou
E se excitou ao desfrutar do prazer carnal
Com uma demônia tão temível e irresistível como eu."

(19/11/2002)

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Lilith

"Nas noites escuras e frias,
quando tudo são trevas puras,
em tua casa penetrarei,
atravessando as grades da janela tua
sob a forma de uma sutil e inocente bruma,
para então materializar-me, deliciosamente nua,
sobre teu corpo inconsciente e dormente.
Podes acordar, te debater, tentar gritar,
Mas, advirto-lhe que será em vão,
Ninguém te ouvirá, nada te poupará
Da minha fúria ardente e paixão.
Com meus dentes e unhas, tuas roupas rasgarei
E sobre ti cavalgarei, em selvagem êxtase,
Meus lábios pálidos e frios se colando aos teus,
Sorvendo o néctar do teu calor,
Tuas mãos, resignadas em não poder lutar,
Meus seios acariciam, levadas pelo prazer
Que invade o teu ser.
As minhas unhas cravando-se em tuas costas,
Deixando um rastro rubro de sangue,
Já não mais te importas com a dor,
Não é mesmo, meu amor?
Nada mais te importa,
Medo, pecado, inferno, punição ou dor,
apenas o prazer que te dou
Em troca de algo tão ínfimo e sem valor:
Tua alma imortal.
Para quê ela serve, afinal?
Estás perdido dentro do meu corpo
De sedutora beleza que em nada lembra a angelical pureza,
Envolto em desejos e fantasias pecaminosas
Que eu realizo com toda presteza.
Teu ser pertence a mim agora,
Tua sanidade foi-se embora,
Estás preso em minha teia de lascívia,
Meu escravo e fiel servo para sempre serás
E saciar o meu desejo incontrolável tentarás.
Teu sangue, gozo e vitalidade me darás,
Assim como a tua alma, sem pestanejar.
Porém, quando não mais puderes me agradar,
De ti me vingarei, jogando fora tua casca mortal inútil e vazia,
Prendendo tua alma impura a grilhões de infinda tortura,
Pois destinado estás a sofrer por toda a eternidade
Nas profundezas abissais do inferno."
(19/11/2002)

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Lilith

Me Mato no Espelho Quem agora corta os pulsos: Eu, ou meu outro eu refletido no espelho? Terá sido meu ou dele o sorriso pleno de assombro e desdém, ao olhar para mim mesma, com as veias em flor, o meu sangue a borbulhar e escorrer? Será que sou eu mesma que me mato? Ou será a minha imagem refletida, aprisionada no espelho? Enquanto anseio por abandonar o real e penetrar nas sombras e brumas da ilusão, meu outro eu almeja, de alguma forma, fugir, escapar, Sair do mundo de sombras da ilusão e tornar-se real, vivo... Talvez seja por isso que ele me matou, cortando meus pulsos: Ao eliminar-me do mundo real, carnal, talvez ele possa finalmente sair de sua prisão dentro do espelho e vestir a diáfana máscara da realidade, assumindo assim o meu papel nesse grande teatro de tragédias e comédias que é a VIDA... Mas a pergunta fica no ar: Quem está a se matar? Eu ou Ele, meu duplo do espelho? Quem foi que começou essa brincadeira insana e mórbida? Creio que foi ele, meu reflexo, quem primeiro me olhou, e mostrou a navalha e os pulsos, convidando-me a me entregar ao mórbido prazer de ver e sentir a vida esvair-se junto a o sangue rubro e quente, que agora inunda o chão do banheiro que um foi meu, mas que em breve será do meu fantasma do espelho... Ah, morrer, será tão diferente assim de nascer? (07/10/2003) Exangüe O sangue coagulado, ressecado, Mancha o chão ao meu redor. Meu corpo, exangue, Envenenado e arroxeado, Jaz ali, como uma flor murcha. Os pulsos cortados, veias dilaceradas, A dor, o desespero, o medo... A dor! Ah, sim, a dor! Quanta dor eu senti Com o veneno letal Que alguém me deu... Para acabar com a dor Preferi me cortar... Pelo menos seria mais rápido, Eu pensei... Na verdade, agora já não sei. Meu espírito agora vaga, Livre da dor, enfim! Se soubesse que seria assim Talvez tivesse me matado antes. (25/06/2004) Inútil 5 lustros. É pouco, mas também é muito tempo. Muito tempo dos antigos. Os antigos, os deuses, viram o rosto para mim. Eu os desonro. Eu sou um fracasso. Uma vida vazia, inútil, levada aos extremos, divida entre os opostos, pendendo sempre para lado pior. Assombrada pelas sombras, tentada pelo mal, pela luxúria, pela devassidão, pela inconsequência. A eterna devoradora. A criança egoísta e mimada. A essência do mal travestida de bem. A casca de beleza encobrindo a fealdade. O dom da palavra usado para manipular, para compensar todas as outras deficiencias. Uma farsa, uma aberração, um monstro... Isso sou eu... E vã foi a minha vida. (21/01/2005) Melhor não escrever Hoje não tem poesia... Porque se for para escrever, vou escrever sobre coisas tristes e coisas sombrias, que rasgam, que cortam a carne, dilacerando a alma, sobre criaturas da noite que destroem lares e matam criancinhas dormindo... Não, é melhor não escrever sobre nada... Não quero envenenar ninguém com o fel amargo que jorra dentro de mim. Não quero ser vista, lida ou ouvida, não olhem para mim, não vejam meus olhos vermelhos e inchados de lágrimas, não olhem os meus pulsos cortatos, não vejam meu corpo lívido, exangüe, caído no chão, em meio a uma poça de sangue. Não chorem o meu fim. Não lamentem nada. Me esqueçam! Eu morri, enfim! Enfim, a paz! Finalmente o nada e o vazio, que me livrarão desta existência vazia, fútil e cheia de dor. Destrui tudo e todos que toquei. Trouxe a desgraça aos que amei. Hoje, morta, fujo da minha culpa. (21/01/2005) Exangüe Sinto a dor, morna e latente, percorrendo meu corpo quase dormente, em torpor. Olho o meu sangue, fluindo, rubro, tingindo o chão de carmim. A lâmina brilha, saciada, à luz bruxuleante das velas. Sinto a Morte, minha amada, chegando, enfim! Com suas pálidas mãos, tão belas, suavemente toca minha face exangüe e, inclinando-se sobre mim, beija meus lábios gélidos, sorvendo o meu último alento. E libertando-me do sofrimento que foi viver. Ah, que momento lindo! Não posso descrever a algria que sinto, agora que estou morta e atravessei a derradeira porta... (19/02/2005) Vazia Chorar, é o que desejo! Minh’alma sangra, sob a plácida e alva máscara de meu rosto com sorriso róseo. De que servem as horas de ócio, se me lembram de ti, e de que eu te amo tanto? Mas já não estás mais aqui. Restam-me a dor e o pranto, como companhia, em minha vida tão vazia e fria. (19/02/2005) Conto infantil Venha, doce menina, olha para mim. Não, não tenha medo. Não vou fazer nada que não me permitas. Venha, senta ao meu lado, prova deste doce, e não me digas que é pecado. Pecado? Isso não existe! É desculpa de gente triste, frustrada, com vergonha de sentir, de ter prazer. Pecado é coisa de quem não vive. Mas nós duas estamos vivas, não é? Então não tenha medo, come o doce, tira essas roupas frias e molhadas, chega mais perto de mim e do fogo da lareira. E me diz, o que fazias lá fora, na chuva, a essa hora da noite? Não te contaram que há perigos na floresta? E que na escuridão os lobos fazem a festa? Ou não tens medo de ser devorada por feras? Mas, onde eu estava? Ah, sim, pedi que tirasses as roupas molhadas. Toma, enrola-te nesta coberta e deita-te em meu colo. Deixa-me ver tua pele, tão branca, como neve, teus lábios, rubros como sangue, que se abrem, cheios de volúpia, como botões vermelhos de rosas. E os teus cabelos!!! Ah, teus negros e fartos cabelos, revoltos, em desalinho, caindo, como uma cascata, um redemoinho, sobre os ombros, escondendo teus seios de donzela, tão jovem e bela. Com olhos de um azul pálido, que são um pecado. De onde vieste, ser encantado? Além do meu castelo, por milhas e milhas, não há mais nada, apenas o moinho abandonado e a floresta escura e traiçoeira. Então, como vieste até aqui? Que criatura podes ser, bela dama, de luxuriosa alvura? E para quê estes dentes tão afiados, como presas? E o que fazes, rasgando minha garganta e sorvendo meu sangue? E o mais bizarro nisto tudo, é que, de predadora, tornei-me presa e banquete para satisfazer a tua sede. No entanto, como por encanto, sinto um prazer tal, tão sobrenatural, tão abissal, que gozo sob tuas mordidas e beijos sanguineos, cheios de desejo. E peço a graça de tornar-me igual a ti, desejo pertencer à tua raça, imortal, letal, sensual, sem igual. E ter o corpo sem idade, exalando volúpia e sensualidade, com a pele, que é branca como a neve, os cabelos, negros como a mãe noite, os lábios, rubros de sangue alheio, os olhos, da cor do pecado. (Thais Drimel – 14/03/2005) Abismo Olho o abismo sob meus pés, e sinto-me incrível e fatalmente atraida pela infindável escuridão. Rasgo minha pele, despedaço minhas carnes. Entrego-me à loucura, minha única e derradeira companheira, nesta vida de mentira e bincadeira. Percebo que a vida, de verdade, começa com a minha morte. E salto, no vazio escuro, rumo ao baque certo e final, no fundo incerto do abismo profundo e fatal. (03/06/2005)

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